“Este é o dia que o Eterno fez”


Casamento durante a Guerra da Independência de Israel, foto de David Seymour.

Por Boaz Gabriel Canhoto, em Jerusalém
(ver 60 anos de Israel na Rua da Judiaria)

Ainda a tinta das assinaturas na Declaração de Independência de Israel não tinha secado e, cinco nações árabes (Egipto, Transjordânia [actual Jordânia], Síria, Líbano e Iraque) alinhavam as suas tropas frente às fronteiras demarcadas pela ONU, prontas para invadir o recém-criado Estado Judaico. A estratégia árabe era simples e previa que a derrota judaica seria alcançada num prazo de uma ou duas semanas apenas.
Isto foi há 60 anos. Israel ficou abalado. Resistiu. Triunfou. Alguém religioso não nega o magnífico “dedo de Deus” presente em muitos dos momentos históricos destas seis décadas em Israel. Mesmo os cépticos certamente se perguntam como esta pequena nação, composta na sua maioria por refugiados, conseguiu erguer um país como o Israel do presente. Um puzzle social confuso, composto de peças dificilmente ajustáveis: judeus e árabes, religiosos e seculares, sefarditas e askenazitas, ex-soviéticos, americanos, etíopes, peruanos, filipinas e tailandeses.
O “milagre israelita” não é fantasia. É conhecida a metáfora do pequeno território composto, ainda há menos de um século, por pântanos e desertos, transformado num fértil jardim. As coisas não acontecem por acaso. Tudo - tudo mesmo - em Israel funciona à custa de muito suor e engenho humano. E fé. Da irrigação dos campos ao trânsito na auto-estrada.
Vim pela primeira a Israel em 1999. Queria passar dois meses das minhas férias de Verão no país, gastando o mínimo de dinheiro possível. Ser voluntário num kibbutz foi a opção ideal. Sem conhecer ninguém no país, sem falar nada da língua local. (Valeu-me o meu inglês.) À chegada, a surpresa: um país verdadeiramente moderno. É certo que já tinha visto imagens de Israel na TV, mas ao vivo é outra sensação. Os arranha-céus de Tel Aviv. Um mito destruído de imediato: a influência americana era quase inexistente. Cartazes publicitários em hebraico! Como era possível viver num país moderno sem usar uma língua ocidental? Peço desculpa pelo eurocentrismo idiota.
Nessa altura, o meu interesse em Israel já não era meramente turístico ou mesmo cultural. Eu estava a bater à porta do Povo de Israel. Nos meus planos, mesmo desconhecendo inteiramente o alcance desse ideal, estava uma conversão ao Judaísmo. Passaram-se anos até voltar a pisar a Terra Santa. Na segunda visita, de apenas 11 dias, o meu processo de conversão já dera muitas e difíceis voltas, mas finalmente começara a tomar forma.
Em apenas quatro meses estaria de volta. Para sempre. Nem eu sabia à partida. Conseguira uma vaga num curso oficial de conversão ao Judaísmo, nos arredores de Jerusalém. Sem trabalho fixo em Portugal, sem ter uma família para sustentar, pouco me prendeu em casa. Fiquei seis meses no curso de conversão e entretanto entrei numa yeshiva. Pela primeira vez, entrei a fundo no mundo religioso judaico.
Sem planos para ficar em Israel, a princípio planeei ficar apenas 6 meses. Ir, converter-me, voltar. As minhas identidades portuguesa e judaica pareciam perfeitamente equilibráveis. O retorno à minha vila da Batalha foi estranho. Eu era um estranho. Foi um regresso a casa, apenas de visita. Fui um turista na minha terra natal. Foi um alívio voltar a Jerusalém.
As mudanças são muito rápidas e radicais para quem vive por estes lados. Em 2005, chegara quando ainda se sentia em força o abalo da destruição dos colonatos de Gaza. Passei cá a Segunda Guerra do Líbano, com os telefonemas quase diários da minha mãe, aterrada com as violentas imagens da guerra transmitidas pela televisão. Implorou-me para voltar para casa. Tentei, como podia, descansá-la. “Que iria eu fazer a Portugal?”, pensei. Não queria sair naquela hora difícil. Não queria ter problemas para voltar, caso saísse.
Frequentemente recebo mensagens de amigos em Portugal que me pedem para voltar. Alegam que esta não é a minha terra. Que não tenho nada a fazer por aqui. Que o meu lugar é em Portugal. Entendo o ponto de vista deles. Um emigrante é visto como um ente temporariamente distante. Não conhecem a essência da emigração para Israel. Afinal, transplantar as raízes para um novo lugar é sempre um choque, também para a terra deixada vaga. Israel foi recém reimplantado nesta terra. Recém, se lembrarmos a cadeia de mais de 3500 anos de história judaica. Todos os que, como eu, decidiram viver aqui, são parte deste novo e impressionante reflorescimento judaico na Terra de Israel.
Estou em Israel há menos de três anos. Como judeu, há quase dois. Como cidadão, ainda não completei sequer um ano. Casei por cá, há exactamente um mês. Não me consigo imaginar a viver, de forma permanente, noutro lugar. Ao fim de um ano de aliya, dentro de alguns meses, vou poder tirar o passaporte israelita. Um ano de israelita em 60 anos de Israel.

Nota: O título provém de um versículo entoado na recitação de Halel, o conjunto de cânticos de louvor a Deus entoados nos dias mais alegres do ano. O Dia da Independência de Israel é um desses dias.

Israel 60 Anos: a Independência


Maio de 1948, Dia da Independência em Tel Aviv, foto de Robert Capa

Por Inácio Steinhardt, em Tel Aviv
(ver 60 anos de Israel na Rua da Judiaria)

O ESTADO DE ISRAEL inicia hoje as comemorações do 60.º aniversário da sua independência.
Que tem isso de extraordinário - dirão alguns - todos os povos comemoram uma vez por ano a sua independência, há dezenas ou centenas de anos e 60 anos não são uma história assim tão longa como isso.
A diferença, para o bem e para o mal, é que este povo existe há mais de 3000 anos. Perdeu a sua independência há dois mil e só há 60 anos a recuperou. Durante dois mil anos andou de terra em terra, de malas na mão, procurando encontrar sossego e sustento, onde lhe permitiam e enquanto lhe permitiam, até que lhe fosse dado regressar à terra dos seus antepassados.
Em dois mil anos poderia talvez ter aprendido a lição da história, feita toda ela de relatos de povos, que tiveram as suas pátrias, e as viram conquistadas por outros povos. Que se assimilaram aos vencedores ou emigraram para outras, a cujos povos se assimilaram, desaparecendo como entidade nacional.
Vejamos, como exemplo, como se formou a península ibérica.
Vieram os iberos e estabeleceram-se no território. Depois juntaram-se-lhes os celtas e formaram um novo povo: os celtiberos. E assim foram chegando, um após outro, outros povos, que conquistaram o território, assimilaram a si os autóctones, ou foram, por sua vez vencidos por novos conquistadores: romanos, visigodos, árabes, sem contactar com os colonos fenícios e cartagineses. Hoje a população de Portugal e Espanha é uma amálgama de povos e de raças.
Judeus já existiam na península quase desde o princípio do povoamento. Mas nunca vieram para conquistar. Por quê? Porque a história e a religião dos judeus é de tal ordem, que este povo só pode subsistir na Terra onde nasceu, a Terra de Israel. Quando o seu pensamento não estiver neste pequeno pedacinho de terra, o povo judeu deixará de existir.
É difícil explicar por quê. Mas enquanto viviam e labutavam na Península Ibérica, “no extremo do Ocidente” - como escreveu nessa altura o poeta Judah Halevy - o seu coração estava no Oriente. Em cada nova geração, houve sempre visionários que anunciavam o próximo regresso. Quando os expulsavam de uma terra, iam para outra. Quando os expulsaram da Espanha, foram para Portugal. Quando os converteram à força em Portugal, foram para a França, para a Holanda, para o Império Otomano, voltando aí ao Judaísmo, rezando sempre com os olhos em Jerusalém. Sempre com o bordão na mão, as malas feitas, e a esperança no coração. A Esperança que é também o nome do hino da sua pátria renovada, que levou dois mil anos a conseguir.
As parábolas, tão comuns aqui no Oriente, são uma forma avisada de fazer compreender conceitos difíceis de explicar por outro modo.
Conta-se que, uma vez, na Polónia, em pleno mês de Outubro, um pai e um filho se dirigiam para a sinagoga, sob chuva torrencial. Era o dia de Shemini Asseret, em que os judeus pedem a Deus que abençoe o ano, para que o inverno seja chuvoso e as terras produzam boas colheitas.
Perguntou o filho ao pai: “Está a chover tanto e nós vamos hoje pedir mais chuva?”.
Respondeu o pai: “Nós vamos pedir a Deus que mande chuva na nossa terra, na Terra de Israel, onde faz tanta falta.”
Quando, em 29 de Novembro de 1947, as nações do Mundo, reunidas na Assembleia Geral das Nações Unidas, decidiram conceder ao povo judeu o direito que têm todos os povos, concedendo-lhe metade do território da Terra de Israel, e criando, ao mesmo tempo, um Estado Árabe na outra metade, essa decisão histórica podia ter sido o início de uma nova era de paz, de boa vizinhança e de prosperidade para os dois povos. Por isso o Conselho do Povo aceitou essa limitação.
Em vez disso, cinco exércitos árabes (Transjordânia, Egipto, Síria, Líbano e Iraque) invadiram o território do Mandato Britânico, ameaçando expulsar todos os judeus para o mar.
Aos judeus só restava uma alternativa: vencer esses cinco exércitos ou permitir que a ameaça dos atacantes se concretizasse.
Numa guerra, o lado que não tem outra alternativa para sobreviver, tem que vencer.
Lembram-se da resposta do Marquês de Pombal perante a ameaça dos espanhóis?
“Muito pode um homem em sua casa, que até depois de morto são precisos quatro para o levarem!”.
Em Maio de 1948, o Conselho Superior Judaico trocou os passaportes palestinianos, que os ingleses tinham emitido aos habitantes da sua metade do território, judeus, árabes, cristãos e drusos, por passaportes do novo Estado de Israel.
Desde então, ainda não houve um dia de paz nesta região, apenas uma situação, que se mantém há 60 anos, ora uma nova guerra ora tréguas, atentados terroristas e ameaças de destruição.
Dois países árabes invadiram a parte da Palestina que a ONU tinha destinado à população árabe da Palestina: o Egipto, na Faixa de Gaza, e a Jordânia, que ocupou a Cisjordânia e mudou o nome do seu reino para Jordânia. Aí se mantiveram até 1967. Os habitantes de Gaza eram cidadãos egípcios. Os da Cisjordânia eram jordanos.
Nessa altura, nenhum desses países, nem sequer os habitantes árabes desse território, falaram num Estado Independente da Palestina, que, a constituir-se, deveria incluir uma grande parte do que hoje é a Jordânia, pois metade da sua população era e é palestiniana. Os restantes são beduínos.
Em 1967, na sequência de mais uma tentativa de invasão árabe, o exército israelita ocupou a Cisjordânia e a Faixa de Gaza. Por muito estranho que isso pareça, iniciou-se um período de boa vizinhança e de co-operação entre os dois povos. Os israelitas visitavam as áreas árabes e ajudaram a desenvolver o turismo e o comércio. Os árabes vinham ao Estado de Israel, uns procurar trabalho, outros comprar novos produtos que aqui se produziam, aprender novas tecnologias e novos processos de agricultura.
Entretanto, apesar das guerras, apesar do clima de insegurança, apesar da necessidade de manter toda a população em constante estado de alerta e de preparação, apesar do enorme ónus da defesa no orçamento anual do estado, os israelitas conseguiram desenvolver um enorme avanço científico e tecnológico, a par de um lugar preponderante na cultura, nas artes plásticas, nas letras, na música, no teatro e no cinema
Dizia-me, em 1969, o filho de um potentado árabe com quem almocei em Gaza: “Vocês fizeram um erro tremendo. Nós sabíamos como se vivia bem em Tel Aviv e nas outras cidades de Israel. A minha irmã, que vive no Líbano, e tem dois passaportes, tem conta aberta nas lojas de modas da Rua Dizengoff, em Tel Aviv. Mas nós dizíamos à população que nessa cidade as pessoas morriam de fome nas ruas. Agora vocês abriram-lhes o acesso às vossas cidades. Eles vão lá e vêem a realidade. Arranjam trabalho, e ganhando mesmo o que, para vocês, são ordenados de fome, hoje, até nas aldeias palestinas, cada casa já tem um frigorífico na cozinha e uma antena de televisão no telhado. Mas um dia vocês terão que se ir embora. Então o povo virá exigir de nós a mesma situação e nós não lhes poderemos dar trabalho. Vão correr rios de sangue e eu não quero aqui estar quando isso suceder. Por isso já comprei sete andares de luxo na Inglaterra.”
Muitos israelitas também atribuíam semelhantemente ao general Moshe Dayan a responsabilidade por esse erro. Dizem eles, talvez com razão, que ele deveria ter aproveitado o resultado favorável da guerra de 1967, para logo ali fazer as pazes com o Egipto e com a Jordânia, negociando com eles pequenos acertos estratégicos de território e traçando finalmente uma fronteira reconhecida, que ainda hoje não existe.
O erro foi feito, e muitos outros se lhe seguiram, alimentando o extremismo dos fanáticos de ambas as partes: implantação de colonatos judaicos, por um lado, e desenvolvimento dos atentados terroristas, pelo outro.
Então, por alturas de 1971, pela primeira vez se começou a falar na ideia de um Estado Palestiniano independente. Pela primeira vez surgiu o movimento nacionalista palestino.
Pouco tempo depois, quando o presidente Anwar Saadat, do Egipto, se propôs finalmente a negociar um tratado de paz com Israel, o primeiro-ministro israelita, Menahem Begin, ofereceu-lhe a entrega da Faixa de Gaza, juntamente com a Península do Sinai ocupada. Sadat declinou terminantemente essa oferta, ameaçando mesmo anular a proposta de paz, se os israelitas insistissem em entregar-lhe a responsabilidade sobre Gaza. Hoje, face ao que está a suceder na Faixa, podemos compreender por quê!
Também com a Jordânia foi feito um tratado de paz, o Líbano é teoricamente um país, cuja população anseia por concretizar a amizade com Israel, mas é dominado pelos extremistas estrangeiros, que lhe não permitem. E talvez a Síria um dia se decida finalmente a deixar normalizar a vida desta região.
Mas o preço que os israelitas pagaram e estão a pagar pela ocupação é enorme.
Parece um sacrilégio dizer isto face ao sofrimento da população palestiniana e do ódio que ele criou tanto nos adultos como nas crianças.
Mas o preço mais elevado para os israelitas talvez não tenham sido os mortos, nem os atentados terroristas. O que o prolongamento da ocupação provocou foi uma deterioração moral interna, sobretudo no seio da juventude, obrigada a servir o país não numa guerra contra soldados, mas no seio da população que serve de escudo aos combatentes palestinianos. Com os anos, que vão passando os israelitas sentem o crescimento da violência interna e do crime organizado.
Dizia uma vez Golda Meir, numa daquelas frases que se dizem para a história, mas que neste caso, sincera ou não, me parece muito certa: “Nós poderemos um dia perdoar aos árabes as mortes dos nossos filhos. Será mais difícil perdoar-lhes o terem obrigado a mandar os nossos filhos combater contra eles.”
Hoje mesmo, quando vos estou a escrever isto, três anos depois dos israelitas terem saído unilateralmente da Faixa de Gaza, as forças do Hamas lançam mísseis sobre as povoações civis israelitas da região, e, o que é mais incompreensível, contra os postos de passagem dos géneros alimentícios, gasolina e medicamentos que vêem de Israel para a sua população.

O Dia da Independência do Estado de Israel são na realidade dois dias.
O primeiro é um dia de luto. Soam as sirenes em todas as povoações para um minuto de silêncio e meditação; o povo une-se em orações recordando os milhares de soldados mortos nas guerras. E com eles as vítimas dos constantes atentados terroristas. As famílias visitam os cemitérios militares e choram junto às campas dos seus entes queridos, cujas vidas foram ceifadas, para que no dia seguinte se possa celebrar com explosões de alegria, bem justificada, mais um ano de sobrevivência e de valiosa realização humana. É um dia de orgulho nacional, pelas sua realizações, e de festas nas ruas e piqueniques.
Sessenta anos.

Israel: 60 anos


A Rua da Judiaria inicia hoje a publicação de uma série de posts destinados a assinalar a passagem do 60° Aniversário da Independência de Israel. Os primeiros serão textos e testemunhos de convidados lusófonos, escritos por luso-israelitas e basileiro-israelenses que vivem o seu dia a dia em Israel.
Para já, e em jeito de lançamento das comemorações, aqui fica uma canção oferecida ao Estado de Israel por Serge Gainsbourg:

.::PARA OUVIR::.

Le Sable & le Soldat, de Serge Gainsbourg

Uma homenagem no último dia de Páscoa


Este quadro, da autoria de Francisco Duarte Azevedo, apresentado aqui em estreia absoluta, intitula-se The Day After the Auto-da-Fé, uma homenagem do pintor aos mortos do massacre de Lisboa, de Abril de 1506. Com uma beleza de calma aparente e toda uma carga de violência subentendida, o quadro pode também ler-se como uma metáfora à vida daqueles que tiveram de viver sob um terror constante.
Obrigados a converter-se ao catolicismo sob pena de morte e sem outra opção possível, os judeus portugueses continuaram a ser judeus, não só no segredo das suas casas, mas também aos olhos dos vizinhos cristãos-velhos que, com intolerância, nunca lhes haveriam de fazer esquecer a sua diferença. Com o correr dos séculos, as tradições judaicas familiares de muitos diluíram-se nas poeiras da história. Outros preservaram esboços de liturgias ancestrais sem se aperceberem dos significados. Outros ainda, numa tradição oral passada de pais para filhos, de avós para netos, cinco séculos depois, sabem que são judeus — um facto teimoso que continua a deitar por terra as teorias daqueles que acreditavam que o judaísmo tinha sido expulso de Portugal. A estes, convencionou-se chamar-lhes marranos — uma palavra que para uns é insulto, mas para outros motivo de intenso orgulho.

Zog Maran (Diz-me Marrano)
(uma canção para a Páscoa Judaica)

Diz-me Marrano, meu irmão,
onde pões a mesa para o Seder?
— Numa caverna escura e funda,
a minha Páscoa irei fazer.

Diz-me Marrano, onde vais
buscar os brancos matzos?
— Na caverna, com a ajuda de Deus,
a minha mulher os lá amassa.

Diz-me Marrano, como consegues
encontrar uma Hagadá?
Na caverna, entre as fendas,
há muito que escondi os livros lá.

Diz-me Marrano, como te
defenderás quando te ouvirem cantar?
— Se me vierem prender, com uma
canção nos lábios irei morrer.

Avrom Reisen

.::PARA OUVIR::.

Zog Maran, Vocolot, poema de Avrom Reisen música de Shmuel Bugatch.

Marrano” é a designação tradicional dada aos judeus forçados a converterem-se ao catolicismo na península Ibérica, sob pena de morte e confiscação de bens, nos séculos XV e XVI. Durante séculos a expressão foi considerada depreciativa por se julgar que derivava de “porco” em castelhano, na verdade, ela é obtida pela contracção das palavras hebraicas márre (מר — amargo/amargurado) e anúze (אונס — forçado / violado) – refere-se também aos seus descendentes, muitos dos quais optam agora pelo processo de conversão para “regressar” à sua tradição ancestral. Em hebraico, os marranos são conhecidos simplesmente como “anussim” (אנוסים). Para diferenciar a palavra da sua homófona depreciativa, e evitar assim qualquer tipo de comparações, o capitão Barros Basto insistia que ela deveria ser escrita com apenas um “r”.

Memória & Justiça

O filósofo e poeta espano-americano George Santayana escreveu que “aqueles que não se lembram do passado estão condenados a repeti-lo”. Depois de séculos de esquecimento — voluntário e involuntário —, a Câmara Municipal de Lisboa contribuiu para que as gerações futuras não esqueçam um dos mais tristes e terríveis páginas da história da cidade quando, há 502 anos, milhares de cidadãos da capital foram chacinados pelos seus vizinhos pelo simples facto de serem judeus.
Segundo a Câmara Municipal de Lisboa, inaugurado agora no Largo de São Domingos, onde o massacre teve início, o memorial é composto por duas esculturas “contributos da Comunidade Judaica (da autoria da arquitecta Graça Bachmann) e da Igreja Católica (da autoria do arquitecto Segismundo Pinto e do escultor Carlos Ramos) que coexistirão como símbolo da reconciliação e do respeito; por uma lápide inscrita no pavimento, tributo da cidade de Lisboa às vítimas do Massacre Judaico de Abril de 1506 e por um mural onde se lê a frase ‘Lisboa, Cidade da Tolerância’ (da autoria dos designers Susana Jesus e Paulo Cardoso) em 34 línguas diferentes”.

.::A LER ::. 500 Anos do Massacre de Lisboa: Salomão Ibn Verga / 500 Anos do Massacre de Lisboa: Garcia de Resende / 500 Anos do Massacre de Lisboa: Samuel Usque / 500 Anos do Massacre de Lisboa: Damião de Góis / 500 Anos do Massacre de Lisboa: Alexandre Herculano / 500 Anos do Massacre de Lisboa: Camilo Castelo Branco / 500 Anos do Massacre de Lisboa: Oliveira Martins / 500 Anos do Massacre de Lisboa: Ferreira Fernandes / 500 Anos do Massacre de Lisboa IX: Memória e Esquecimento

Os limites do internacionalismo

Um texto de Amitai Etzioni

Numa reacção à falência do unilateralismo da Administração Bush, o internacionalismo está novamente em voga. E para relembrar como funcionam as Nações Unidas, a organização internacional por excelência, basta ver a forma como recentemente abordou o chamado “discurso de ódio”.
O Conselho dos Direitos Humanos da ONU acabou de condenar de forma inequívoca um filme feito por Geert Wilders, um político holandês de extrema-direita, no qual ataca violentamente o Islão. O governo holandês fez tudo ao seu alcance para impedir o lançamento do filme. Nenhum canal de televisão da Holanda — ou de qualquer outro país — o quis transmitir. O que, por sinal, levanta sérias questões em relação à liberdade de expressão. Finalmente, o filme seria colocado online no site britânico liveleak.com. Como reacção, o Conselho dos Direitos Humanos da ONU aprovou uma resolução lamentando a utilização dos media “para incitar actos de violência, xenofobia ou intolerância e discriminação contra o Islão” ou outras religiões.
Entretanto, a Al-Aksa, uma estação de televisão do Hamas, continua as suas transmissões ininterruptas para as pessoas de Gaza. A programação desta estação glorifica frequentemente os bombistas suicidas, os responsáveis pelo lançamento de morteiros Qassam e apela à destruição do Estado de Israel. Nesta estação, até os programas para crianças promovem o ódio contra o povo judeu — incluindo repetidas acusações de que os judeus usam o sangue de outros nos seus rituais e que foram eles os responsáveis pelos atentados ao World Trade Center.
Repare-se que ao contrário do filme holandês, feito por um único indivíduo, a Al-Aksa é produto do esforço organizado de um movimento inteiro e do governo de Gaza, apostado em emitir tudo isto regularmente para milhares de crianças e jovens. Mas, mesmo assim, o Conselho dos Direitos Humanos da ONU não encontra aqui nada que o preocupe.
Deixem-me primeiro dizer que o povo palestiniano têm bastante com que se preocupar, e que a situação em Gaza é horrível. No entanto, nenhuma destas preocupações — que devem ser atendidas o mais depressa possível — será servida se o Hamas continuar a exigir a destruição de Israel, ensinando aos seus jovens seguidores que odeiem cegamente os judeus.
Eu próprio apontei a importância crescente das Nações Unidas como uma força principal na determinação do que a comunidade internacional considera legítimo. A ONU desempenhou um papel importante na classificação de quando a invasão a um país é legítima (como no Kuwait) e quando não é (como no Iraque de Saddam). As suas agências sociais ajudam com frequência pessoas por todo o mundo.
No entanto, se a ONU quiser tornar-se uma parte ainda mais importante da nova arquitectura global, tem de se ofender mais por causa de actos de violência e menos com liberdade de expressão (quer pode chegar a ser ofensiva e revoltante) e ser, acima de tudo, muito mais imparcial. Ódio difundido contra os judeus não é melhor nem mais aceitável do que aquele dirigido contra os muçulmanos.

Este texto foi originalmente publicado em inglês, na semana passada, (ver The Limits of Internationalism) pelo professor Amitai Etzioni.

.::A VER::. Al-Aksa TV Child TV Host of Hamas Mickey Mouse Saraa Barhoum, Sings / Hamas Rabbit: Eat the Danes! / Hamas Bunny, Assud, Replaces His “Martyred” Brother Nahoul / Kindergarten Graduation Ceremony in Gaza on Hamas TV / Hamas Indoctrinating Toddlers / Hamas Cleric: We will Conquer Rome / Hamas: “We love Death More Then Life!”.
O Conselho de Direitos humanos da ONU: UN Human Rights Council: Defeating Freedom of Expression

Os Irmãos Coen e os judeus do Alasca

Acabados de arrebanhar quatro Oscares com No Country for Old Man, os Irmãos Joel e Ethan Coen estão a preparar dois filmes com temas judaicos. O primeiro projecto chama-se A Serious Man, mas o que me prendeu a atenção foi o segundo: uma adaptação cinematográfica do romance The Yiddish Policemen’s Union, de Michael Chabon.
Lembram-se de Fargo? Da omnipresença da neve, da claustrofobia das imensidões infinitamente brancas? Sim?! Agora polvilhem por lá uns milhões de judeus e terão o início de The Yiddish Policemen’s Union — um livro que mistura a ficção histórica com o que de melhor se pode desejar num romance policial. Chabon escreve aqui como se Sholem Aleichem ou Isaac Bashevis Singer se tivessem fundido com Raymond Chandler. Phillip Roth que me perdoe, mas The Yiddish Policemen’s Union é o melhor romance que li nos últimos meses. E o detective Meyer Landsman é o melhor personagem de um policial desde Phillip Marlowe, Sam Spade e Jaime Ramos.
A premissa conta-se em poucas linhas: depois do Holocausto, os judeus perdem a guerra da Independência de Israel, em 1948, e são forçados a aceitar o asilo temporário concedido no Alasca pelo presidente americano Franklin Roosevelt. Por incrível que possa parecer à primeira vista, esta proposta do Departamento do Interior dos EUA existiu de facto (ver Slattery Report), mas a sua votação no plenário do Congresso nunca chegou a acontecer por veemente oposição do congressista do Alasca Anthony Dimond.
Neste universo gelado Chabon inventa todos os pormenores de um quotidiano alternativo, chegando ao detalhe de engendrar, por exemplo, um calão que, de uma forma natural como o ar que ali se respira, mistura palavras hebraicas com sonoridades do iídiche e do inglês — piece (literalmente pedaço ou peça em inglês), no jargão noir quer dizer arma, mas a palavra lembra também a sua homófona peace (que quer dizer paz), logo, naquela imaginária colónia judaica do Alasca, que poderiam polícias, ladrões e gangsters chamar às suas armas senão… shalom. Pois. Se a adaptação cinematográfica não vai ser uma tarefa fácil, não menos complexa será a tradução do livro para português. O penúltimo livro de Michael Chabon, As Espantosas Aventuras de Kavalier & Clay teve já edição portuguesa, dada à estampa pela Gradiva, mas The Yiddish Policemen’s Union é um verdadeiro grau 9 na Escala de Richter para qualquer tradutor menos preparado.
Enquanto me deliciava com o romance, parei muitas vezes a meio de uma página, coçando o queixo e tentando antever como iria o tradutor português desvencilhar-se do primoroso nó cego que Michael Chabon acabava de dar numa frase brilhante. Não invejo o tradutor português de The Yiddish Policemen’s Union que, para além de um inglês americano com arcaboiço significativo, terá de ter conhecimentos de hebraico e iídiche — tudo isto misturado com uma necessária fluência de cultura e costumes judaicos.
Não invejo? Se calhar, o problema é que invejo mesmo… sim, porque há gente com muita sorte!

.:: A LER ::. Coens speak ‘Yiddish’ for Columbia - Variety / Meshuga Alaska - The New York Review of Books /Michael Chabon Q&A / Michael Chabon - The Yiddish Policemen’s Union - Book - New York Times — The frozen Chosen / Stuart Jeffries talks to Michael Chabon: The language of exile / Coen Brothers: Masters of the film universe / The Yiddish Policemen’s Union - Michael Chabon - Review - New York Times

Há 40 anos — Martin Luther King Jr. e os judeus


Rabino Abraham Joshua Heschel, Martin Luther King Jr., Ralph Abernathy e o rabino Maurice Eisendrath carregando os rolos da Torá.

Passaram este fim-de-semana exactamente 40 anos sobre o assassinato do reverendo Martin Luther King Jr., líder da luta pelos direitos cívicos da comunidade negra norte-americana. Recordado principalmente pela força dos discursos, pela capacidade de inspirar outros a irem além de si próprios e além das barreiras impostas pela injustiça, Martin Luther King encontrou nos judeus, desde o início, verdadeiros compagnons de route.
Ao longo de toda a sua campanha pela igualdade entre pessoas de diferentes raças, Martin Luther King contou sempre com o apoio incondicional da esmagadora maioria da comunidade judaica americana e dos seus líderes. Há 40 anos, em comícios, marchas e acções cívicas, os judeus juntaram a sua voz aos desejos de justiça expressos nos discursos e nos gestos de King. O rabino Abraham Joshua Heschel, seu amigo pessoal, participou com ele em inúmeras manifestações e caminhadas. Heschel chamava-lhes “rezar com os pés”.

.:: A OUVIR ::.

Sermão de Martin Luther King na congregação judaica de Temple Israel, em Hollywood, na Califórnia, a 26 de Fevereiro de 1965, apresentado pelo rabino Max Nussbaum.

.:: A LER ::. Two Prophets, One Soul: Rev. Martin Luther King, Jr. and Rabbi Abraham Joshua Heschel / Jews & Civil Rights / An Irvine rabbi remembers marching with Martin Luther King Jr. / Martin Luther King’s Hollywood dream

Teresa Salgueiro: uma voz Sefardita


::PARA OUVIR::

La Serena, Teresa Salgueiro & Lusitânia Emsemble, 2007

La Serena é a canção que dá o título ao último álbum de Teresa Salgueiro. Discretamente, sem pompa nem circunstância, mas com uma qualidade imensa, esta canção marca o regresso a Portugal — pela primeira vez em cinco séculos — do Ladino, a língua sefardita dos judeus ibéricos, feita de mesclas de castelhano e português medievais com hebraico. Na prática, La Serena é o resultado da junção de pelo menos duas canções distintas; uma delas, Mar de Leche, já passara pelas Músicas da Judiaria, há quatro anos, na voz igualmente notável de Suzy (que pode ser ouvida aqui: Mar de Leche, Suzy).

Yael Naim: New Soul


Sefardita franco-israelita de ascendência tunisina, Yael Naim tem uma voz notável e um talento da mesma medida. Quando Steve Jobs escolheu esta canção para o anúncio televisivo do MacBook Air, a popularidade da bela cantora israelita disparou em flecha nos EUA. Merecidamente.

A coragem de Mona

Mona Eltahawy é uma mulher de imensa coragem. Jornalista muçulmana, nascida no Egipto, Mona vive actualmente em Nova Iorque, de onde escreve com uma lucidez irrepreensível. Um dos seus últimos artigos, Our Own Worst Enemy, defende a necessidade absoluta dos líderes islâmicos olharem para si próprios em vez culparem Israel e o Ocidente por todas as suas desgraças. O bombismo suicida durante décadas floresceu como táctica preferencial do terror palestiniano contra civis israelitas, com a complacência do mundo islâmico — que além de nunca ter condenado o terror suicida, o incentivou elevando-o à categoria de “martírio”. Agora, numa imensa ironia pregada pelo destino, como nota Mona Eltahawy, os bombistas suicidas transformaram-se na “arma preferida para ajustar contas entre muçulmanos, em países muçulmanos”, no Afeganistão, no Paquistão e no Iraque.
Neste seu artigo (e noutros) Mona Eltahawy dá voz a uma reflexão introspectiva absolutamente fundamental que tem de acontecer na sociedade muçulmana. Para seu próprio benefício. E para o bem de todos nós.

::A LER:: Our Own Worst Enemy — by Mona Eltahawy / O Mundo Permanece em Silêncio, uma notável análise sobre o genocídio dos árabes praticado pelos árabes assinado por Ben-Dror Yemini.

Shabot 6000: A Linguagem Binária

Clave de Sol


Seios soltos
Desejo envolto
Ensejo.
Percurso de
Solfejo sôfrego —
O teu corpo.

Este é um poema antigo, envergonhadamente meu, escrito em Lisboa há quase duas décadas. Tem exactamente 12 palavras, tantas quantas me foram amavelmente pedidas pelo Ricardo António Alves e pelo Luís Simões.
Com um abraço a ambos.

Ilustração: três nus de Anna Akhmatova desenhados pelo lápis de Amadeo Modigliani, judeu italiano, em 1911

A origem do conceito de “licença de parto”

Num período de dois anos, entre 1913 e 1915, a América seguiu atentamente uma dura batalha judicial que haveria de mudar radicalmente a forma como as mulheres eram encaradas nos locais de trabalho.
Uma professora de Nova Iorque fora despedida a 22 de Abril de 1913 por estar grávida, com as autoridades escolares a defenderem o despedimento com base em “negligência do dever com o propósito de dar à luz”.
Numa atitude rara para a época, a professora não aceitou a decisão dos seus superiores e levou o caso para tribunal. Dois anos depois, o processo acabaria por instituir as bases de um direito que alastraria por todo o globo: a licença de parto. Esta professora, pioneira na luta pelos direitos laborais das mulheres chamava-se Bridget Peixotto e era membro da comunidade de judeus nova-iorquinos de ascendência portuguesa.
Bridget casara a 12 de Fevereiro de 1912 com Francis Raphael Maduro Peixotto, um corretor de seguros — que, nascido em 1860, era 20 anos mais velho que ela. Quando casou, Bridget Peixotto trabalhava já há 18 anos no sistema de ensino primário nova-iorquino, tendo passado com distinção os exames de promoção aos escalões mais elevados do magistério primário.
No ano lectivo de 1912/1913, Bridget e Francis Maduro Peixoto moravam no número 41 de St. Nichols Terrace, em Manhattan, ela era professora principal da Escola Pública 14, em Thongs Neck, Bronx, auferindo um salário anual de 2400 dólares (o que daria hoje qualquer coisa como 4500 dólares mensais ajustados pela inflação).
Em Fevereiro de 1913, Bridget Peixotto adoece gravemente enquanto estava grávida e notifica de imediato as autoridades escolares, tal como obrigava a lei. Na altura, no entanto, as professoras não podiam continuar na profissão depois de darem à luz, uma vez que a sociedade não via com bons olhos que uma mulher casada, e mãe de filhos, trabalhasse fora de casa.
Bridget Peixotto acabou por ser suspensa e seguidamente despedida — enquanto estava ainda no hospital depois de ter sido mãe de Helen Esther Peixotto — por “negligência do dever com o propósito de dar à luz”.
Não se dando por vencida, Bridget Peixotto desafia a acusação e a própria ideia de que uma mulher não poderia continuar a ensinar depois de ser mãe. Citada na página 7 da edição de 29 de Maio de 1913 do New York Times, ela afirma:

Contestarei o caso até ao fim. O Conselho Educativo, ao permitir que mulheres casadas ensinem ao mesmo tempo que as proíbe de cumprirem uma função fundamental do casamento, está a agir de forma ilegal. É absolutamente imoral e não será apoiado por nenhum tribunal. Em nenhum lado se pode proclamar a maternidade como uma negligência do dever. É permitido às mulheres casadas ensinarem nas escolas públicas, mas negasse-lhes tempo para que tenham filhos.

Em primeira instância, a verdade é que o Conselho Educativo manteve a decisão, votando 27 contra 5 em favor do despedimento de Bridget Peixotto. É então que ela avança para os tribunais. Depois de ver o processo arrastar-se infinitamente, com várias decisões judiciais em seu favor, por ordem do Supremo Tribunal, em 1914 Bridget Peixotto faz uma exposição ao Comissário Estadual para a Educação, John Huston Finley, que anos mais tarde seria director do New York Times. Em resposta, Finley dá-lhe razão e escreve: “A Senhora Peixotto foi acusada de negligência do dever, mas não foi declarada culpada de negligência — foi sim declarada culpada de ter dado à luz.”
Finalmente, em Janeiro de 1915, numa decisão histórica, John Finley dá ordens para que Bridget Peixotto seja reabilitada nas suas funções prévias com salário pago por completo. Três anos depois, em 1918, ela tornar-se directora da escola, mantendo-se no magistério primário em Nova Iorque até se reformar, em 1948, quando atingiu a idade limite de 70 anos.
Bridget Peixotto faleceu a 10 de Abril de 1972, em Nova Iorque, aos 92 anos de idade, deixando um legado invejável. No obituário que lhe dedicou dois dias após o seu falecimento, o New York Times afirmava que ela era “responsável pela institucionalização da licença de parto por todo o país” e pelo mundo: “O seu caso permitiu que largos milhares de mulheres pudessem tirar uma licença para dar à luz. A decisão motivou também alterações no sistema do sector privado, fazendo com que hoje seja perfeitamente normal que uma mulher possa manter o emprego quando fica grávida.”

Referências a Bridget Peixotto e ao seu caso: The Public Papers of Margaret Sanger / Her Works Praise Her: A History of Jewish Women in America from Colonial Times to the Present / JSTOR: The Elementary School Journal: Vol. 25, No. 9 (May, 1925), pp. 692-695 / Everybody’s Paid But the Teacher … / DISMISSAL OF TEACHER BECAUSE OF PREGNANCY

Bibliografia: New York Times, 29 de Maio de 1913, pág.7; NYT 11de Junho de 1913; NYT 23 Junho de 1913; NYT 26 Julho de 1913; NYT 11 de Janeiro de 1914; NYT 2 de Novembro de 1914; NYT 15 de Dezembro de 1914; NYT 12 de Janeiro de 1915; NYT 12 de Abril de 1972.
The Grandees of New Jersey (2006), Dr. Neil Rosenstein

Memória

A Câmara Municipal de Trancoso colocou recentemente online as Actas das Primeiras Jornadas do Património Judaico da Beira Interior — uma organização conjunta dos municípios de Trancoso e Belmonte que contou com a participação de dezenas de estudiosos e especialistas portugueses e espanhóis.
Nas actas, com um total de 198 páginas, encontram-se verdadeiros tesouros do património judaico bem como algumas deliciosas curiosidades — como o trabalho do engenheiro Manuel da Silva Castelo Branco, que abre a resenha, sobre a comunidade judaica de Castelo Branco e os laços ancestrais de Fernando Pessoa. Pode ainda ser lido um brilhante e aprofundado ensaio assinado pelo arquitecto José da Conceição Afonso, director da delegação do IPPAR de Castelo Branco, intitulado Judaísmo e Arquitectura Vernácula Civil na Beira Interior Quinhentista.
As actas encerram com uma resenha minuciosa do bem documentado estudo Inquisição e Independência, Um motim no Fundão -1580, da autoria da professora Maria Antonieta Garcia.
Aqui vai a lista completa dos trabalhos publicados:
A COMUNA JUDAICA DA VILA DE CASTELO BRANCO [1381-1496] / EL PROYECTO MUSEOGRÁFICO DEL MUSEO SEFARDÍ DE TOLEDO / JUDAÍSMO E ARQUITECTURA VERNÁCULA CIVIL NA BEIRA INTERIOR QUINHENTISTA / JUDIARIA DE BELMONTE – AVALIAÇÃO E REFLEXÃO SOBRE PROCESSOS DE REABILITAÇÃO / MARCAS CRUCIFORMES DE AGUIAR DA BEIRA MEDELIM - A RUA DA JUDIARIA / MEMÓRIAS GRAVADAS NA PEDRA – UM PATRIMÓNIO A CONHECER NO CONCELHO DE TRANCOSO / OS JUDEUS DE TRANCOSO: ENTRE A LEI DE MOISÉS E O BAPTISMO / UMA LÓGICA PERIFÉRICA PARA OS CENTROS: OS MENDES/BENVENISTE ENTRE A BEIRA INTERIOR E ISTAMBUL / UM MOTIM NO FUNDÃO EM 1580

O download do documento integral pode ser feito aqui: Actas das Primeiras Jornadas do Património Judaico da Beira Interior (formato pdf)